1

Tu não me ouves e não me vês, há anos que os teus olhos olham através de mim, mas eu sou de carne e osso e estou aqui e estou a dizer-te tudo o que penso, esta foi a gota de água que fez transbordar o copo da minha paciência que não é um copo é um tanque, o que te vale, o que te valeu, é que a minha paciência é um tanque enorme mas hoje encheu e transbordou, os meus sonhos estão bem no fundo desse tanque e por cima está a água toda que correu entre mim e ti, águas passadas não movem moinhos, mas pesam, pesam muito e eu estou afogada nessa água, que merda de metáforas, esquece as metáforas foda-se, ouve o que eu te estou a dizer, por uma vez ouve o que te estou a dizer, não, ouve tu o que te estou a dizer, não faço eu outra coisa, não fazes tu outra coisa, dizes, mas não é verdade, não é verdade, tu finges que me ouves, tu decoras o que eu digo só para me enganar quando te pergunto, quando te pergunto estás a ouvir tu repetes-me o que eu digo, mas o que eu digo não é só o que eu digo, o que eu digo é o que eu sinto e tu não queres saber, como se eu me tivesse tornado para ti aquilo que sou para todos os outros, assim não vale a pena continuar, não vale mesmo, achas que são só os teus sonhos que morreram afogados, ou achas só que os teus sonhos valiam mais do que os meus, no fundo és uma cabra egoísta, e tu és um cabrão egotista.

No calor da discussão perderam-se os travões e os travessões; era impossível distinguir quais as palavras que pertenciam a Mário e quais a Luísa. É possível que várias das palavras pertencessem aos dois. Com ainda maior probabilidade se poderia supor que a maioria das palavras não pertenciam a nenhum deles, eram apenas palavras que diziam à falta de outras que descrevessem o que verdadeiramente sentiam. Acusaram-se um ao outro e injuriaram-se um ao outro até que a Luísa não encontrou mais palavras para dizer, nem das que lhe pertenciam a ela, nem das que pertenciam aos dois ou a ninguém. Agarrou um prato como se quisesse expressar-se com o som de loiça a fazer-se em cacos (talvez fosse uma outra metáfora) e só então se lembrou que na sala estavam Tomás e Lia à espera do pudim flã.

Luísa voltou da cozinha com o pudim flã e perguntou aos convidados se queriam tomar café. Sorriu, era um sorriso nervoso e visivelmente forçado, mas com boas intenções. Tomás queria um café, mas disse que não. O Mário demorou um pouco mais a voltar da cozinha e voltou de semblante carregado, incapaz de sorrir. Pediram desculpa os dois, como se estivessem a competir, várias vezes e com reiterada veemência. A ostentar desculpas senhoras de meia-idade a mostrarem os seus caniches num concurso. Lia e Tomás tentaram reconfortá-los, disseram-lhes que não fazia mal algum, que eram coisas que aconteciam em todas as casas, enfim, não era como se só se conhecessem de agora, ora essa.

Depois disso, houve um silêncio espesso e incómodo, cuja duração nenhum dos presentes seria capaz de medir. Lia disse que o pudim flã estava óptimo, para dizer qualquer coisa. Tomás concordou, Luísa agradeceu. Tentaram fingir que estava tudo como dantes, mas os silêncios repetiam-se sempre a cada duas ou três frases. Educadamente, Lia e Tomás levantaram-se e despediram-se.

Nessa noite, Luísa deitou-se na cama e foi incapaz de dormir. O Mário também foi incapaz de dormir, mas no sofá. Não deu nada de jeito na televisão.

Deixe um Comentário

Filed under Contos, Prosa

Deixar um comentário

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s