Lia e Tomás fizeram a viagem de regresso a casa toda em silêncio. Quando se preparavam para deitar, Lia disse que estava preocupada com o Mário e a Luísa, Tomás disse-lhe que ia tudo correr pelo melhor, que ela ia ver, são coisas que acontecem em todas as relações, e além disso fosse o que fosse era entre eles e ela não se devia preocupar. Lia não insistiu.
Nessa noite Tomás sonhou com um comboio muito comprido a atravessar estepes verdes que se repetiam até a um horizonte feito de céu azul muito azul e nuvens brancas muito brancas. Sentada à frente de Tomás estava uma rapariga vestindo aquilo que parecia ser uma camisa-de-dormir branca. O vestido parecia brilhar, como se fosse feito de luz. Sorria um sorriso que podia significar tudo e, por isso mesmo, acabava por não significar nada. Ao lado da jovem ia uma senhora de meia idade a ler um livro. O revisor chegou e pediu-lhes os bilhetes. A jovem e a idosa deram-lhe os bilhetes, mas Tomás não sabia onde tinha o dele. Procurou nos bolsos das calças e do casaco, mas primeiro estavam todos vazios e quando voltou a procurar já nem tinha bolsos.
O revisor tinha uns olhos escuros como breu e só por Tomás os olhar fez-se noite à volta do comboio. Disse-lhe que se não tinha o bilhete tinha que sair do comboio.
- Assim mesmo, em andamento?
- Assim mesmo, em andamento.
Lá fora não se via um palmo à frente do nariz. Tomás virou-se à procura da jovem da sorriso enigmático à janela, mas o comboio desapareceu. Tudo tinha desaparecido. Tomás não via os próprios pés e não tinha a certeza de estar a pisar um chão. Fechou os olhos com força, no sonho e na realidade. Quando os voltou a abrir (só no sonho) a escuridão total tinha sido substituída por uma alvura luminosa. Muito ao fundo, como mais um ponto de luz na claridade total, estava a jovem do comboio. Caminhar na luz era um exercício de vontade, porque não havia referências e os passos pareciam não valer nada. A rapariga estava tão dsitante como o seu sorriso ininteligível, e Tomás demorou uma eternidade a tê-la ao alcance da voz.
- Seremos nós a ser assim, um dia?
Já passava das quatro da manhã quando Lia acordou Tomás, acariciando-lhe o braço. Nós. Dia. Ser. Tomás demorou a fazer sentido das palavras. Lia repetiu a pergunta. Tomás tentou confortá-la,
- Claro que não, querida.,
e envolveu-a num abraço. Lia queria fazer mais perguntas, mas não sabia quais. Tomás só queria voltar a adormecer. Mais tarde, quando acordou, seria capaz de jurar a pés juntos que Lia não lhe tinha feito nenhuma pergunta e que ele não tinha dado nenhuma resposta. Também não reencontrou a jovem no sonho, e embora o seu subconsciente tenha sentido alguma desilusão, de manhã também já não se lembrava de ter sonhado com um comboio, e muito menos com uma rapariga vestida de luz.
