O sol já declinava sobre a floresta quando a Capuchinho Vermelho chegou a casa da avozinha. As sombras das árvores eram enormes, muito maiores que as árvores. Já lá estavam há muito tempo, as árvores. A maioria delas era mais velha ainda que a avó da Capuchinho Vermelho. E a avozinha era muito velha.
Bateu à porta, mas ninguém atendeu. Estava destrancada – não há ladrões na floresta. Quem é que haveria de se lembrar de ir morar em tal sítio? A Capuchinho Vermelho tinha ouvido os pais dizer que a avó devia ir era para uma daquelas casas muito grande onde havia outros velhinhos. A avó não queria ir. Dizia que não, que não e que não e que nunca.
Os teus pais querem meter a avó numa casa muito grande onde há outros velhinhos e ficam todos juntos a morrer juntos, porque são velhinhos, dizia-lhe a avó. A Capuchinho Vermelho não percebia por que é que os pais queriam meter a avó numa casa onde morriam velhinhos, nem por que é que a avó não queria ir brincar com as meninas e meninos da sua idade. Que era muita, porque a avozinha era muito velha.
A casa estava destrancada e ela entrou. Era uma casa pequena. A porta da entrada quase dava para o quarto, que era a primeira divisão à esquerda no pequeno vestíbulo.
A avozinha do Capuchinho Vermelho tinha realmente um ar estranho. Um pouco inchada.
- Trouxe-te aqui o jantar avozinha.
- Oh, obrigado netinha.
- Mas por que é que tens olhos tão grandes?
- Para te ver melhor, minha netinha.
- E por que é que tens ouvidos tão grandes?
- Para te ouvir melhor, minha netinha.
- E essa boca, tão grande… Oh avozinha, tu não estás nada bem… Se calhar é da gripe A!
A Capuchinho Vermelho rodou nos calcanhares e foi para o jardim à procura de rede. Tinha a Linha Saúde 24 no speed dial.
O lobo mau, desgostado da situação e da digestão, ficou cheio de azia. Cambaleou até à casa-de-banho onde vomitou não só a avozinha, mas também três anões, duas irmãs más e o burro de Bremen envolto em tufos do cabelo de Rapunzel.