Janeiro 28, 2010

Disclaimer

Nos sites da especialidade não se tem falado de outra coisa. Todos os rumores foram confirmados, o que quer dizer que a Apple lançou mais uma next big thing que, na verdade, não traz nada de novo. É a Apple, porém, e há quem acredite no Steve Jobs como num messias e procure a Verdade num produto Mac…

Ora bem, o que a Apple lançou:

- é um iPhone gigante que não faz chamadas;

- pode correr aplicações web, mas não tem microfone/ webcam integrada para fazer chamadas VoIP;

- é alardeado pelo próprio Jobs como a evolução do Kindle, mas não serve para ler livros electrónicos, pois o ecrã é um simples LCD, sem a qualidade dos eInk do Kindle ou do Nook;

- é muito bom para quem gosta de ir a lojas electrónicas comprar. Comprar o quê? Livros não, como já disse, não dá jeito para ler. Música também não, ninguém leva aquilo como leitor de MP3, não cabe no bolso; aplicações iPhone, desenhadas para um pequeno ecrã, agora em grande? Enfim, se gostar de gastar dinheiro, está à vontade, a Apple agradece;

- tem o office da Apple… o teclado não dá é jeito para escrever, não existe feedback táctil e, como o ecrã é mais pequeno que um computador normal, o teclado, que aparece no ecrã, também é mais pequeno e pouco prático, até porque, ao contrário do telemóvel, este não se segura só com uma mão.

Estes tipos são fantásticos a criar tecnologia cara, que não serve para nada, mas que todos querem comprar.

Dezembro 13, 2009

A avozinha do Capuchinho Vermelho

O sol já declinava sobre a floresta quando a Capuchinho Vermelho chegou a casa da avozinha. As sombras das árvores eram enormes, muito maiores que as árvores. Já lá estavam há muito tempo, as árvores. A maioria delas era mais velha ainda que a avó da Capuchinho Vermelho. E a avozinha era muito velha.

Bateu à porta, mas ninguém atendeu. Estava destrancada – não há ladrões na floresta. Quem é que haveria de se lembrar de ir morar em tal sítio? A Capuchinho Vermelho tinha ouvido os pais dizer que a avó devia ir era para uma daquelas casas muito grande onde havia outros velhinhos. A avó não queria ir. Dizia que não, que não e que não e que nunca.

Os teus pais querem meter a avó numa casa muito grande onde há outros velhinhos e ficam todos juntos a morrer juntos, porque são velhinhos, dizia-lhe a avó. A Capuchinho Vermelho não percebia por que é que os pais queriam meter a avó numa casa onde morriam velhinhos, nem por que é que a avó não queria ir brincar com as meninas e meninos da sua idade. Que era muita, porque a avozinha era muito velha.

A casa estava destrancada e ela entrou. Era uma casa pequena. A porta da entrada quase dava para o quarto, que era a primeira divisão à esquerda no pequeno vestíbulo.

A avozinha do Capuchinho Vermelho tinha realmente um ar estranho. Um pouco inchada.

- Trouxe-te aqui o jantar avozinha.

- Oh, obrigado netinha.

- Mas por que é que tens olhos tão grandes?

- Para te ver melhor, minha netinha.

- E por que é que tens ouvidos tão grandes?

- Para te ouvir melhor, minha netinha.

- E essa boca, tão grande… Oh avozinha, tu não estás nada bem… Se calhar é da gripe A!

A Capuchinho Vermelho rodou nos calcanhares e foi para o jardim à procura de rede. Tinha a Linha Saúde 24 no speed dial.

O lobo mau, desgostado da situação e da digestão, ficou cheio de azia. Cambaleou até à casa-de-banho onde vomitou não só a avozinha, mas também três anões, duas irmãs más e o burro de Bremen envolto em tufos do cabelo de Rapunzel.

Novembro 24, 2009

Efeméride

Há 150 anos foi editado um livro com um dos piores títulos de que há memória (há alguns títulos piores, mas desses não há memória). Chamava-se On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life.

Novembro 21, 2009

Admirável Mundo Novo

BraveNewWorldE afinal o que é a Utopia, o que é a felicidade e até que ponto as nossas liberdades e paixões, ódios e revoluções nos impedem de ser felizes? Uma história de ficção científica de uma sociedade nova, onde alguns drogados promíscuos adoram a Ford (Our For ou Our Freud, como por alguma razão inescrutável, gostam de lhe chamar quando o assunto é psicologia) e habitam alegremente a sua ignorância, sem hipótese de escolha, até um dia lhes aparecer um Selvagem (ou acidente) que lê Shakespeare. É um clássico da literatura, o quinto melhor livro de língua inglesa do século XX na lista da Modern Library, e com todo o direito, porque é bom.

Novembro 21, 2009

Citação do dia

“Depois suspirou «Como isto seria divertido se não se fosse obrigado a pensar na felicidade!»”

Mustafá Mond in

“Admirável Mundo Novo”,

Aldous Huxley

Novembro 20, 2009

A monarquia em Portugal

Ora bem, eu gosto muito de ler a secção de comentários em sites de acesso público, como o YouTube ou o Público ou o MaisFutebol. De vez em quando aparecem magníficas pérolas que certas ostras iluminadas vão regurgitando por aí. Qualquer espaço de comentário de um vídeo português no YouTube corre o risco de se tornar numa batalha campal entre brasileiros, prontos a esgravatar todo o produto desse grande império colonial que é Portugal, e portugueses, preparados para defender heroicamente a sua pátria esgrimindo os mesmos argumentos bacocos. Foi durante uma dessas magníficas discussões que surgiu a seguinte pérola

“aew pro tuga fdp vcs sao um bando de metido q ainda tem rainha e sim somos uns do pais mais mais violentos do mundo mais quem ganho a copa de 2016 aki no… BRASIL”

Sim, Portugal é um bando de gabarolas que, ainda por cima, tem uma rainha. É, antes de mais, um insulto, compararem-nos a países subdesenvolvidos e culturalmente tão atrasados como os Países Baixos, a Noruega ou a Suécia. Sucede que aqui a monarquia já teve melhores dias, e por estes dias o que mais próximo temos com uma linhagem real são o bolo-rei e o bolo-rainha, que por estes dias devem estar quase a dar um ar da sua graça.

Novembro 9, 2009

Um Cão Que Sonha

O «”Cão Que Sonha” é uma expressão colhida no livro de Monte-Faro», que é como quem diz que é como Maria Pascoal descreve Léon de Geta. A minha edição vem autografada pela própria Agustina, e diz (tanto quanto eu consigo ler): “uma história prudente sobre as mulheres”. E é de facto uma história sobre mulheres: Maria Pascoal, a La Roque, a pobre de vida e espírito, mãe de Léon Geta, a Kátia, as três mulheres más; isto apesar de se falar quase sempre de Léon, e do livro de Monte-Faro, cuja autoria lhe é atribuída, apesar de ter sido escrito por Maria. Bem escrito, apesar de andar em círculos e espirais que encadeiam e nos levam a pensar que a história nunca mais desenvolve – que se deve ao facto deste livro não contar uma história, mas, ao invés, desenhar um retrato.

Outubro 28, 2009

A tempestade

Há dias que correm mal. Nem correm: arrastam-se. Nesses dias geralmente chove; geralmente perde-se o chapéu de chuva para o vento ou esquece-se o casaco impermeável em casa. Mas se não chove a chuva, é o próprio dia vem a chover atrás de nós.

As tempestades não aparecem do nada. Não fosse assim e veríamos os anúncios dos meteorologistas em pequenos rectângulos coloridos entre o anúncio da astróloga Carmen e a promessa do vidente professor Fofana que é capaz de resolver todos os nossos problemas. As tempestades formam-se a pouco e pouco, nuvem a nuvem. Um dia evolui uma depressão que vem nem se sabe de que ponto cardeal. Depois chove, e chove tudo ao mesmo tempo. Somos levados numa torrente de lama e azares e pessoas desagradáveis.

Telefonamos ao professor Fofana, gastamos o saldo todo do telemóvel nas chamadas de valor acrescentado e no fim da chamada nem os feiticeiros africanos nos valem. Estamos perdidos e só nos apetece acordar noutro dia qualquer que não este. Enfim, chove a sério: se não são as densas cordas de água que ligam o céu que desaba à terra, são as outras, metafóricas, que vão daqui ao inferno.

O dia a seguir à tempestade pode não ser um dia bom, pode ser um dia como os outros, mas é tão melhor, tão calmo; mesmo que caiam umas pingas e no céu não se vejam senão nuvens brancas, descobrimos o sol.

Setembro 21, 2009

O Sporting é uma porcaria?


Perdido na tradução

Setembro 16, 2009

Para bom observador, meia vida basta.