O Debate do Estado da Nação, aliás, todas as reuniões da assembleia, podiam ser uma oportunidade para tirar ilações não só do estado da nação como das perspectivas de futuro. Claro que não é isso que se passa, nunca. Ainda ontem Louçã dizia: a pobreza aumentou em Portugal. Sócrates dizia a pobreza diminuiu, veja os números entre 2005 e 2007. Na bancada do Bloco de Esquerda riram-se, em 2009 de certeza que piorou – ainda não saíram foram números. E de tudo isto, que é bem pouco, os telejornais entregam-nos o soundbite. “Onde o governo pensa que é mais forte, é onde é mais fraco.” diz Louçã a Sócrates, “Você é que tem falta de rigor, senhor deputado.”, retorque Sócrates a Louçã.
Portanto o estado da nação é o seguinte:
- Nananananana!
- Tu é que és!
- Não, tu é que és!
- Já não brinco mais contigo.
Todos os deputados concordam, que todos os deputados são incompetentes, embora cada um deles resguarde umas quantas excepções, nomeadamente a sua própria pessoa. E assim, saltitamos de insulto em insulto; mas no que diz respeito a insultos as regras são claras: que se chamem aldrabões, trapaceiros, ou pouco verdadeiros, demagogos, elitistas, mentirosos e vigaristas, incompetentes, criminosos, ignorantes indecorosos. Que se diga, sem apontar razões, que alguém é um inútil. Mas que nunca, nunca, se coloquem dois dedos na testa como se fossem cornos.
Duvido que os chifres do senhor Manuel Pinho quisessem de facto, dizer alguma coisa sobre a possibilidade de relações extraconjugais da esposa do líder parlamentar do PCP. Eu nem sei o homem é casado, e dúvido que o soubesse mesmo que lesse a Lux. O mesmo é dizer que a vida conjugal ou extra do líder parlamentar do PCP não interessa nem à coscuvilhice das senhoras reformadas que estão no cabeleireiro à espera de vez. E se não interessa a elas não interessa a ninguém.
Portanto os cornos não significavam nada. E o deputado lá põe os dedos contíguos à testa, nos mesmos canais de televisão em que, ainda há pouco, ficámos sem saber quais são as propostas para o país dos partidos de assento parlamentar; ficámos sem saber repetidamente, e sem remissão possível. E o ministro sai, não porque não tem capacidade para fazer o trabalho que lhe foi atribuído, mas porque fez um gesto que, de certo, não significou nada para ninguém, nomeadamente para o próprio Bernardino Soares, líder parlamentar do PCP a quem se dirigia a tal representação gestual dos concretos apêndices de um bovino.
Agora todos os partidos vêm lastimar o sucedido. O PS lastima porque já começa a fazer as contas matematicamente possíveis às legislativas, como se fosse o Benfica no fim do campeonato. Os outros lastimam que haja quem venha à televisão falar bem do trabalho do Ministro da Economia, sem por isso deixarem de abrir garrafas de champagne e dizerem de uns para os outros, temos que repetir isto um dia destes.