Dezembro 13, 2009

A avozinha do Capuchinho Vermelho

O sol já declinava sobre a floresta quando a Capuchinho Vermelho chegou a casa da avozinha. As sombras das árvores eram enormes, muito maiores que as árvores. Já lá estavam há muito tempo, as árvores. A maioria delas era mais velha ainda que a avó da Capuchinho Vermelho. E a avozinha era muito velha.

Bateu à porta, mas ninguém atendeu. Estava destrancada – não há ladrões na floresta. Quem é que haveria de se lembrar de ir morar em tal sítio? A Capuchinho Vermelho tinha ouvido os pais dizer que a avó devia ir era para uma daquelas casas muito grande onde havia outros velhinhos. A avó não queria ir. Dizia que não, que não e que não e que nunca.

Os teus pais querem meter a avó numa casa muito grande onde há outros velhinhos e ficam todos juntos a morrer juntos, porque são velhinhos, dizia-lhe a avó. A Capuchinho Vermelho não percebia por que é que os pais queriam meter a avó numa casa onde morriam velhinhos, nem por que é que a avó não queria ir brincar com as meninas e meninos da sua idade. Que era muita, porque a avozinha era muito velha.

A casa estava destrancada e ela entrou. Era uma casa pequena. A porta da entrada quase dava para o quarto, que era a primeira divisão à esquerda no pequeno vestíbulo.

A avozinha do Capuchinho Vermelho tinha realmente um ar estranho. Um pouco inchada.

- Trouxe-te aqui o jantar avozinha.

- Oh, obrigado netinha.

- Mas por que é que tens olhos tão grandes?

- Para te ver melhor, minha netinha.

- E por que é que tens ouvidos tão grandes?

- Para te ouvir melhor, minha netinha.

- E essa boca, tão grande… Oh avozinha, tu não estás nada bem… Se calhar é da gripe A!

A Capuchinho Vermelho rodou nos calcanhares e foi para o jardim à procura de rede. Tinha a Linha Saúde 24 no speed dial.

O lobo mau, desgostado da situação e da digestão, ficou cheio de azia. Cambaleou até à casa-de-banho onde vomitou não só a avozinha, mas também três anões, duas irmãs más e o burro de Bremen envolto em tufos do cabelo de Rapunzel.

Novembro 24, 2009

Efeméride

Há 150 anos foi editado um livro com um dos piores títulos de que há memória (há alguns títulos piores, mas desses não há memória). Chamava-se On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life.

Novembro 21, 2009

Admirável Mundo Novo

BraveNewWorldE afinal o que é a Utopia, o que é a felicidade e até que ponto as nossas liberdades e paixões, ódios e revoluções nos impedem de ser felizes? Uma história de ficção científica de uma sociedade nova, onde alguns drogados promíscuos adoram a Ford (Our For ou Our Freud, como por alguma razão inescrutável, gostam de lhe chamar quando o assunto é psicologia) e habitam alegremente a sua ignorância, sem hipótese de escolha, até um dia lhes aparecer um Selvagem (ou acidente) que lê Shakespeare. É um clássico da literatura, o quinto melhor livro de língua inglesa do século XX na lista da Modern Library, e com todo o direito, porque é bom.

Novembro 21, 2009

Citação do dia

“Depois suspirou «Como isto seria divertido se não se fosse obrigado a pensar na felicidade!»”

Mustafá Mond in

“Admirável Mundo Novo”,

Aldous Huxley

Novembro 20, 2009

A monarquia em Portugal

Ora bem, eu gosto muito de ler a secção de comentários em sites de acesso público, como o YouTube ou o Público ou o MaisFutebol. De vez em quando aparecem magníficas pérolas que certas ostras iluminadas vão regurgitando por aí. Qualquer espaço de comentário de um vídeo português no YouTube corre o risco de se tornar numa batalha campal entre brasileiros, prontos a esgravatar todo o produto desse grande império colonial que é Portugal, e portugueses, preparados para defender heroicamente a sua pátria esgrimindo os mesmos argumentos bacocos. Foi durante uma dessas magníficas discussões que surgiu a seguinte pérola

“aew pro tuga fdp vcs sao um bando de metido q ainda tem rainha e sim somos uns do pais mais mais violentos do mundo mais quem ganho a copa de 2016 aki no… BRASIL”

Sim, Portugal é um bando de gabarolas que, ainda por cima, tem uma rainha. É, antes de mais, um insulto, compararem-nos a países subdesenvolvidos e culturalmente tão atrasados como os Países Baixos, a Noruega ou a Suécia. Sucede que aqui a monarquia já teve melhores dias, e por estes dias o que mais próximo temos com uma linhagem real são o bolo-rei e o bolo-rainha, que por estes dias devem estar quase a dar um ar da sua graça.

Novembro 9, 2009

Um Cão Que Sonha

O «”Cão Que Sonha” é uma expressão colhida no livro de Monte-Faro», que é como quem diz que é como Maria Pascoal descreve Léon de Geta. A minha edição vem autografada pela própria Agustina, e diz (tanto quanto eu consigo ler): “uma história prudente sobre as mulheres”. E é de facto uma história sobre mulheres: Maria Pascoal, a La Roque, a pobre de vida e espírito, mãe de Léon Geta, a Kátia, as três mulheres más; isto apesar de se falar quase sempre de Léon, e do livro de Monte-Faro, cuja autoria lhe é atribuída, apesar de ter sido escrito por Maria. Bem escrito, apesar de andar em círculos e espirais que encadeiam e nos levam a pensar que a história nunca mais desenvolve – que se deve ao facto deste livro não contar uma história, mas, ao invés, desenhar um retrato.

Outubro 28, 2009

A tempestade

Há dias que correm mal. Nem correm: arrastam-se. Nesses dias geralmente chove; geralmente perde-se o chapéu de chuva para o vento ou esquece-se o casaco impermeável em casa. Mas se não chove a chuva, é o próprio dia vem a chover atrás de nós.

As tempestades não aparecem do nada. Não fosse assim e veríamos os anúncios dos meteorologistas em pequenos rectângulos coloridos entre o anúncio da astróloga Carmen e a promessa do vidente professor Fofana que é capaz de resolver todos os nossos problemas. As tempestades formam-se a pouco e pouco, nuvem a nuvem. Um dia evolui uma depressão que vem nem se sabe de que ponto cardeal. Depois chove, e chove tudo ao mesmo tempo. Somos levados numa torrente de lama e azares e pessoas desagradáveis.

Telefonamos ao professor Fofana, gastamos o saldo todo do telemóvel nas chamadas de valor acrescentado e no fim da chamada nem os feiticeiros africanos nos valem. Estamos perdidos e só nos apetece acordar noutro dia qualquer que não este. Enfim, chove a sério: se não são as densas cordas de água que ligam o céu que desaba à terra, são as outras, metafóricas, que vão daqui ao inferno.

O dia a seguir à tempestade pode não ser um dia bom, pode ser um dia como os outros, mas é tão melhor, tão calmo; mesmo que caiam umas pingas e no céu não se vejam senão nuvens brancas, descobrimos o sol.

Setembro 21, 2009

O Sporting é uma porcaria?


Perdido na tradução

Setembro 16, 2009

Para bom observador, meia vida basta.

Julho 3, 2009

O estado da nação

O Debate do Estado da Nação, aliás, todas as reuniões da assembleia,  podiam ser uma oportunidade para tirar ilações não só do estado da nação como das perspectivas de futuro. Claro que não é isso que se passa, nunca. Ainda ontem Louçã dizia: a pobreza aumentou em Portugal. Sócrates dizia a pobreza diminuiu, veja os números entre 2005 e 2007. Na bancada do Bloco de Esquerda riram-se, em 2009 de certeza que piorou – ainda não saíram foram números. E de tudo isto, que é bem pouco, os telejornais entregam-nos o soundbite. “Onde o governo pensa que é mais forte, é onde é mais fraco.” diz Louçã a Sócrates, “Você é que tem falta de rigor, senhor deputado.”, retorque Sócrates a Louçã.

Portanto o estado da nação é o seguinte:

- Nananananana!

- Tu é que és!

- Não, tu é que és!

- Já não brinco mais contigo.

Todos os deputados concordam, que todos os deputados são incompetentes, embora cada um deles resguarde umas quantas excepções, nomeadamente a sua própria pessoa. E assim, saltitamos de insulto em insulto; mas no que diz respeito a insultos as regras são claras: que se chamem aldrabões,  trapaceiros, ou pouco verdadeiros, demagogos, elitistas, mentirosos e vigaristas, incompetentes, criminosos, ignorantes indecorosos. Que se diga, sem apontar razões, que alguém é um inútil. Mas que nunca, nunca, se coloquem dois dedos na testa como se fossem cornos.

Duvido que os chifres do senhor Manuel Pinho quisessem de facto, dizer alguma coisa sobre a possibilidade de relações extraconjugais da esposa do líder parlamentar do PCP. Eu nem sei o homem é casado, e dúvido que o soubesse mesmo que lesse a Lux. O mesmo é dizer que a vida conjugal ou extra do líder parlamentar do PCP não interessa nem à coscuvilhice das senhoras reformadas que estão no cabeleireiro à espera de vez.  E se não interessa a elas não interessa a ninguém.

Portanto os cornos não significavam nada. E o deputado lá põe os dedos contíguos à testa, nos mesmos canais de televisão em que, ainda há pouco, ficámos sem saber quais são as propostas para o país dos partidos de assento parlamentar; ficámos sem saber repetidamente, e sem remissão possível. E o ministro sai, não porque não tem capacidade para fazer o trabalho que lhe foi atribuído, mas porque fez um gesto que, de certo, não significou nada para ninguém, nomeadamente para o próprio Bernardino Soares, líder parlamentar do PCP a quem se dirigia a tal representação gestual dos concretos apêndices de um bovino.

Agora todos os partidos vêm lastimar o sucedido. O PS lastima porque já começa a fazer as contas matematicamente possíveis às legislativas, como se fosse o Benfica no fim do campeonato. Os outros lastimam que haja quem venha à televisão falar bem do trabalho do Ministro da Economia, sem por isso deixarem de abrir garrafas de champagne e dizerem de uns para os outros, temos que repetir isto um dia destes.